As viagens de Pink Martini passaram todas pelo EDPCoolJazz

Reportagem de Tiago Espinhaço Gomes 

1407_pinkmartini.cooljazz_070_siteÉ quinta-feira, 10 de Julho, e está um princípio de noite muito agradável. O público, mais velho do que novo (muitos estão hoje na primeira noite do NOS Alive), espalha-se pelos Jardins do Marquês de Pombal. O espaço é, de facto, magnífico: o cenário natural, a iluminação bem conseguida, e a boa música ambiente convidam qualquer um a chegar mais cedo e a jantar alguns dos petiscos espalhados pelo recinto. Entretanto, vai-se fazendo noite e a lua (quase-cheia) sugere que o concerto está prestes a começar.

Às 21h30 entre em cena Mimicat, um recente projeto liderado pela vocalista Marisa Mena. Provavelmente desconhecidos da maioria do público, explicam: “este é o nosso segundo concerto”. E acrescentam: “o nosso primeiro disco sai em Setembro”. Não parece, tal a descontração e competência musical que têm em palco. As suas sonoridades alternam entre a soul, o blues e o jazz dos anos 40-50. São notórias as influências de cantoras como Ella Fitzgerald ou Nina Simone, e até da mais contemporânea Amy Winehouse.

Com um entusiasmo visível, contagiando o público em mais do que um momento, tocaram ao todo nove músicas. Destaque para “Somebody else”, tema principal do novo álbum, “Tell me why”, single já divulgado nas rádios, e uma interpretação animada de “Hit the road Jack”, clássico imortalizado por Ray Charles. Em suma: uma excelente primeira parte para aquecer a audiência. E uma boa surpresa para o futuro – há que estar atento a Mimicat.

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Eram já 22h30 quando os Pink Martini começaram a atuação. A audiência, quase cheia, aplaude vibrante. As expectativas estão altas: o arsenal de composições e arranjos musicais é digno de registo. Afinal de contas são já vinte anos de carreira (o grupo estreou-se em 1994 em Portland, na costa oeste dos EUA). Esta noite estão presentes onze músicos, divididos entre metais, percursões, guitarra, violino, contrabaixo e piano, além das vozes.

O espetáculo começa com “Amado mio”, o cha-cha-cha inaugural do primeiro álbum Sympathique (de 1997), magistralmente interpretado pela vocalista Storm Large (a mais conhecida China Forbes não esteve presente). De seguida damos um salto a Cuba para cantar o clássico “Quizás quizás quizás”. O público acompanha no refrão e a vocalista elogia: “Muy bien Oeiras”. Depois de nova prestação em ritmos latinos é agora tempo de rumar ao Brasil para “Midnight Bossa Nova”, cantado em dueto com o também percursionista Timothy Nishimoto.

À quinta música voltamos ao cha-cha-cha para um dos temas mais conhecidos do grupo: “Donde estas Yolanda”. De seguida, Pink Martini convida-nos agora a viajar até à Turquia para escutar “Üsküdar’a Gider ?ken”. “Há alguém turco na plateia?” Parece que sim: sobe a palco uma nativa acompanhar a orquestra. As próximas três músicas vêm agora num registo mais calmo e intimista, a última das quais “Omide zendegani”, uma música folk romena.

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Depois deste “intervalo”, inicia-se novamente a festa. Agora sem vozes, são apenas os instrumentos que fazem as delícias da audiência. A vocalista pede ao público que se levante e dance. A reação é imediata e junta-se muita gente em frente ao palco. Parece que estamos numa mega baile em plenos anos 20. Destaque para as percursões e para o exímio pianista, Thomas Lauderdale, fundador da banda e carinhosamente conhecido entre os músicos como “Big Daddy”.

Depois de nova música em tons latinos, o espetáculo pára em Itália para o clássico “Una note à Napoli” e segue depois até à India, para um tema de Bollywood. De regresso aos EUA, é agora a vez de acalmar um pouco. Toca-se “She was to good to me”, música gravada por Chet Baker em 1930.

Voltamos a baixar às águas quentes do Caribe para “Anna (el negro zumbon)” e “Tempo Perdido (Lagrimas)”. O público acompanha com palmas e a vocalista não pára de dançar. O entusiamo dos dois lados do palco é notório. Segue-se mais um cha-cha-cha: “Let’s Never Stop Falling in love”. Ao lado da plateia juntam-se muitos casais a dar o seu passo de dança. Segue-se o tema “Zundoko-bushi” (em japonês) e para despedida um dueto ao som de “Get Happy / Happy days”.

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O público aplaude de pé, extasiado, e reclama por mais. É já meia-noite mas ainda há energia. Pink Martini respondem positivamente e entram novamente para o imortal “Que Sera, Sera”. Para surpresa de todos, o palco parece agora uma caixa de música (sim, daquelas com uma bailarina que se dão à corda). A musicalidade, sublime: no início, melodias dissonantes e eximiamente coordenadas dão-nos a impressão de uma fragilidade fugaz; a meio, os refrões vão alternando com uma orquestra portentosa de semblante forte. Mas que arranjo!

Por fim, uma última viagem para “Aquarela do Brasil”. Toda a plateia está de pé a sambar e as percursões dão show. A vocalista começa a chamar algumas pessoas para palco. De repente, são já mais de vinte espetadores a dançar ao lado dos músicos. E assim termina o concerto: depois de desfilarmos todos no sambódromo, em pleno Carnaval, é tempo de guardar as energias e rumar a casa.

 

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