Aprenda A Tocar Músicas Pós-Modernas Tal Como No tempo Das Jukeboxes No Coliseu De Lisboa E Sem Sair De Casa Com Scott Bradlee

É já bastante perto do final do set, que Adam Kubota (possivelmente da família dos fabricantes de tratores e máquinas de jardinagem), o único dos membros originais da formação em palco, dirige umas quantas palavras ao público. Relembra que, de uma cave em Queens e de cachets pagos em sandes de falafel, o projecto, com cinco anos de existência, foi crescendo, sobretudo através das redes sociais. E que não tinha grandes dúvidas que a ideia de Scott Bradlee – escrever arranjos para canções pop e arranjar “world class entertainers” para as executar – era uma fórmula de sucesso.

De facto, a receita desta Postmodern Jukebox, ou PMJ no acrónimo pelo qual também é conhecida e que faz lembrar uma sociedade de advogados, parece ser relativamente simples: pegar em temas que todos conhecemos e dar-lhes uma volta com arranjos que remetam para meados do século passado, para perto dos anos 20 e 30, por altura da Lei Seca nos EUA. O resto é um cuidadíssimo mise en scène que pretende retratar algo parecido com um speakeasy e – atrevo-me a acrescentar – aqui e ali, com requintes de cabaret.

Abundam no youtube filmes com interpretações que vão do “Lovefool” dos Cardigans e do “Ops I did it again” da Britney Spears, ao “Nothing else matters” dos Metallica e “Black hole sun” dos Soundgarden. A formação apresentada é maleável, adapta-se ao tema e ao respectivo arranjo: a somar à secção rítmica, que normalmente conta com o próprio Scott Bradlee ao piano, podemos ter naipes de sopros a fazer lembrar big bands, coros masculinos e femininos, formações de cordas, até soluções menos ortodoxas, como uma harpa e o sapateado a cumprir o papel de percussão.

O elemento central é, no entanto, a voz (ou, melhor dito, vozeirão) de uma ou mais divas que, elegantemente caracterizadas à época, ocupam o papel principal (e não, não me estou a referir ao da Adelaide Ferreira), projectada através de um daqueles microfones quadradões, à boa moda antiga, que relembram os primórdios da rádio.   

E como se transporta esta ideia da cave do apartamento de Scott Bradlee em Queens e do youtube para um palco? Mais ou menos assim: mantém-se uma secção rítmica de base, assim como o piano (electrónico) e acrescenta-se um guitarrista (que, por vezes, pega num banjo). A estes, junta-se um trombonista e uma clarinetista que também tem um saxofone. E, posso desde já avançar, sem estragar (muito, quase nada) o que aí vem, também canta. Finalmente, arranjam-se três senhoras cantoras, munidas de três portentosas vozes, e um cantor careca que tem ainda a tarefa importante de ser uma espécie de apresentador dos Oscares: aquece o público, introduz os restantes elementos da banda, diz piadas, etc. E, claro, como não podia deixar de ser, há um tipo que faz sapateado em cima da barra metálica, colocada no lado direito do palco, lá à frente para se ver bem, e com um par de microfones a captar o som das solas.

As luzes do Coliseu apagam-se com alguns minutos de atraso. Os elementos da banda assumem as suas posições e o tal tipo careca (vou assumir esta designação ao longo do texto porque o nome Coonio (parecido com Coolio) que tenho nas minhas notas não produz nenhum resultado aceitável numa busca no Google) surge com a energia típica de um coelho da Duracell, desejando as boas noites ao público ao mesmo tempo que, à la Cab Calloway, arranca uns quantos “hi-de-hi-de-hi-de-ho” do “Minnie the moocher”, antes de iniciar o primeiro tema da noite, “Thriller” de Michael Jackson, acompanhado ao sapateado. Detentor de uma tessitura notável, o nosso amigo careca tem uns agudos algures entre Axl Rose nos primórdios e metaleiro dos que gritam “heaaavvyyy meeetaaall” a fazer corninhos com as mãos: mais depressa parecem conseguir ferir tímpanos alheios do que produzir danos nas próprias cordas vocais.

“Lisbon, make some noise” e, após a normal reacção do público, “now that sounds like a party”. Seguem-se três temas que funcionam como apresentação, uma a uma, das três divas da noite: ao primeiro tema “You give love a bad name” de John Bon Jovi, segue-se o “Single ladies (put a ring on it)” da Beyoncé e “I’m not the only one” de Sam Smith.

Um pequeno comentário “passadeira-vermelha” ou próprio de um programa da SIC Caras: as senhoras com deslumbrantes vestidos – que, assim como o nosso amigo careca, vão trocando inúmeras vezes, ao longo das várias entradas em palco, como se estivéssemos numa passagem de modelos – quais Jessicas Rabbit, arrebatam a audiência não só com a voz sensual, mas também com o andar e os gestos lânguidos. “Gentlemen, hang on to your hats; ladies, hang on to your men”. Relembram-me a célebre imagem da Audrey Hepburn no “Breakfast at Tiffany’s”, com o cigarro na ponta de uma cigarrilha gigante.

O quinto tema é clássico dos Jet “Are you gonna be my girl”, interpretado pelo nosso amigo careca que, em abono da verdade, foi um dos seus destaques e praticamente mandou a casa abaixo, fazendo uso de toda a sua extensão vocal. A meio do tema, de joelhos no chão, tronco para trás com as costas quase a tocar no chão, a clarinetista/saxofonista faz um solo, desta vez com o segundo daqueles instrumentos, com o pé apoiado na perna estirada do cantor.   

E é assim que termina aquilo que pode ser considerada a primeira parte do concerto. Feitas as apresentações iniciais e o devido aquecimento da audiência, o espectáculo entra em velocidade cruzeiro e as interacções com o público são reduzidas. Ouvimos o enorme clássico “I will survive” de Gloria Gaynor, assim como uma versão com ritmo latino do “This love” dos Maroon 5, o “Toxic” da Britney Spears, “Where are you now” do Justin Bieber, entre outros. Lembram-se quando disse que a clarinetista/saxofonista também cantava? Pois é verdade e a única vez que o fez, pelo meio dos outros temas que referi, deu-nos uma interpretação do “No surprises” dos Radiohead que, para os meus ouvidos, foi um dos grandes momentos da noite.  

Tenho inevitavelmente que destacar o tema de Meghan Trainor “All About That Bass”, cuja adaptação foi uma das conquistas de Scott Bradlee. Os músicos deixam os seus lugares e avançam todos até à beira do palco, já de si bem composto, uma vez que este é um tema que envolve as três cantoras. Parecem uma marching band de Nova Orleães e executam um conjunto de coreografias  que, no final, conseguem arrancar uma gargalhada de umas das cantoras. E, não consigo não o fazer, tenho que voltar a destacar um tema de Radiohead, desta vez o “Creep”.

Há uma certa teatralidade em todo o desenrolar dos acontecimentos, um pouco à semelhança dos musicais americanos. A performance é toda ela planeada ao mais ínfimo pormenor, desde a set list aos números de sapateado, do guarda-roupa até, inclusivamente, às piadas, daquelas que apenas necessitam de trocar o local do concerto para funcionar em qualquer sala de espectáculos. Dos poucos momentos que me parecem ter sido fora do guião: a escorregadela e subsequente (perdoem-me a terminologia técnica) bate-cú do homem do sapateado quando fez a entrada em cena no Thriller, logo ao início. A ter sido intencional, o tipo é mesmo bom.

Chegamos ao final do set com o “Tomorrow” do filme Annie, uma música que tinha o condão de alegrar a pequena quando se sentia triste no orfanato. Os músicos virão ao palco ainda para dois encores: “Chandelier” de Sia e “Shake it off” de Taylor Swift. Nesta última, é pedido ao público do Coliseu, que tinha ficado de pé após uma ovação ao primeiro encore, para não se sentar e “shake what your mama gave you”.

Scott Bradlee criou uma espécie de franchise. Sem sair do conforto do lar, lança as tournées da sua banda que, apesar da rotatividade dos elementos que a compõem, mantém as características-chave do conceito de espectáculo que delineou. Esta jukebox pós-moderna leva-nos, com tanto de vintage como de kitsch, até há 100 anos atrás, mas com músicas deste presente ou, pelo menos, passado bem mais recente. Lá está, como o próprio nome indica, músicas da pós-modernidade, uma jovem nascida após a queda do Muro de Berlim. O negócio não deve estar a correr mal: apesar das cerca de duas horas de espectáculo, algo me diz que, se desse para meter mais uma moeda na jukebox e escolher mais um tema, o público não teria hesitado.   

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