CCB Mostrou Que Oitenta Concertos É Quanto Basta Para Dar a Volta ao Mundo

3 dias cheios de música de diferentes países e épocas animaram Belém este fim de semana

A premissa dos Dias da Música em Belém do CCB deste ano, que tiveram lugar entre os dias 22 e 24 de abril, partiu de uma das mais emblemáticas obras da literatura do século XIX: A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, da autoria de Júlio Verne.

O CCB propôs-se emular a mítica viagem do fleumático britânico Phileas Fogg e do seu carismático criado francês Passepartout. Mas, em vez de o fazer literalmente e com o recurso aos transportes disponíveis à altura, o CCB presenteou-nos, ao invés, com oitenta concertos de música dos mais variados locais, cantos e recantos do mundo, tocados pelos cerca de 1700 músicos que pisaram os palcos do centro.

E, de facto, a enorme diversidade dos concertos atesta ao carácter eclético que se pretendeu imprimir a este acontecimento musical, qual pequena aldeia global musical a decorrer num fim-de-semana lisboeta. A título de exemplo, às 15h00 de sábado encontravam-se a decorrer, em simultâneo: a sinfonia Escocesa de Mendelssohn interpretada pela Orquestra XXI, música de Nova Orleães tocada pelos Desbundixie e, nas salas de menor dimensão, música de inspiração grega, israelo – palestiniana, da Guiné-Bissau, bem como uma sessão dedicada à latinidade, com temas de, entre outros, Carlos Paredes, Pedro Jóia e Paco de Lucía.

Nestas circunstâncias, o mais difícil é, por vezes, navegar pelo programa e fazer escolhas. Os concertos de abertura e de encerramento são as poucas excepções que não obrigam a escolher. O primeiro teve lugar na sexta-feira à noite e contou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direção de Pedro Amaral, que interpretou Debussy, Manuel de Falla e a Scheherazade de Rimsky-Korsakov. No domingo à noite, o concerto de encerramento intitulado A Viagem de Phileas Fogg fez uma última homenagem àquele herói, com um alinhamento que incluiu obras de Verdi, Puccini e Copland, entre outros.

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Dentre as sessões mais relevantes, destacam-se a dedicada à Rússia Imperial da Orquestra Sinfónica Portuguesa, acompanhada pela violinista Tatiana Samouil e pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, assim como o concerto para mão esquerda de Ravel, com Frédéric Chaslin a interpretar ao piano e, em simultâneo, a dirigir a Orquestra Gulbenkian. No final, Chaslin convidou o público a acompanhá-lo enquanto tocou o “Bohemian Rapsody” dos Queen.

Júlio Verne foi o autor que mais li na minha infância, um interesse cultivado pelos meus avós que me ofereceram a quase totalidade da obra do escritor francês. É certo que não folheio uma página desses livros há décadas mas ainda hoje têm assento numa prateleira dedicada cá em casa. E, sobretudo, o escritor ficou para sempre associado ao meu imaginário juvenil, com as suas histórias de feitos e peripécias improváveis e aventuras corajosas.

De certa forma, a viagem ao mundo em oitenta concertos dos Dias da Música em Belém enquadra-se naquele espírito. E, à semelhança de Fogg que decidiu levar a cabo a sua viagem motivado por uma aposta de vinte de mil libras, também a Direção do CCB fez aquilo que considerou de uma “aposta arriscada” ao deixar o Grande Auditório, na tarde de sábado e num total de quatro concertos, a cargo de um conjunto de jovens formações: a OJ.Com, a Jovem Orquestra Portuguesa e a Orquestra XXI. Apesar de um possível menor efeito de atração destas formações – bem como de maestros jovens – junto do público face a outras mais conceituadas, entregar-lhes as chaves do Grande Auditório com o intuito de promover o futuro da música portuguesa foi uma aposta considerada ganha.

E nem assim a organização do evento se ressentiu. No que toca a números,a taxa de ocupação situou-se perto daquela verificada no ano passado e com um incremento da oferta de concertos – 63 em 2015 face aos tais 80 deste ano. Para além disso, e a somar às tradicionais atividades destinadas a fazer chegar a música aos mais novos, a edição deste ano teve também a novidade de um conjunto de espetáculos de dança. A sala Júlio Verne esteve dedicada a ritmos africanos e latinos, na noite de sexta-feira, assim como nas tardes de sábado e domingo. Por tudo isto, a organização faz um balanço bastante positivo desta edição dos Dias da Música em Belém, naquele que é um dos momentos mais importantes da programação anual do CCB.

Em relação ao futuro, a Direção do CCB levantou um pouco do véu do que serão as linhas orientadoras do festival em 2017. O tema será Letras da Música e o objectivo será explorar a relação entre a literatura e a música. Uma das iniciativas pensadas será lançar o desafio a alguns escritores para serem programadores, o que poderá começar com ex-diretores da casa. Neste contexto, a organização tem em vista as suites de violoncelo para Bach, obra particularmente apreciada por Vasco Graça Moura.

É pretendido também alargar o espectro da programação com a inclusão da ópera, embora, neste caso, a opção deverá recair sobre árias e não obras completas. Por um lado, porque a duração de uma ópera não se coaduna com o formato de 45 a 50 minutos pretendido, embora tal não seja de excluir, por exemplo, como concerto de encerramento. Por outro lado, há a questão mais prosaica mas igualmente importante do relevo orçamental que a ópera implicaria – fica lançado o repto aos patrocinadores.

Reportagem de Daniel Carvalho (texto) e Ana Filipa Correia (fotos)

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