Susana Félix volta a “brincar com as canções” em Procura-se

Entrevista de Cristina Alves
Fotos de arquivo C&H de Sara Santos

Três anos depois do seu último disco Pulsação e um ano depois da homenagem a Ary dos Santos em a Rua da Saudade, Susana Félix regressa com Procura-se, um trabalho  que se afasta das sonoridades mais acústicas dos últimos trabalhos e que fica marcado pelo dueto com Jorge Drexler em “A idade do céu”.

Vencedor de um Óscar para melhor canção original no filme Diários de Che Guevara, o cantor veio a Lisboa para cumprir o desejo de Susana em gravar e adaptar “Lá idade del cielo”. Jorge Drexler gravou o dueto com Susana Félix quando esteve há dois anos num concerto no São Jorge, um momento que a cantora recorda como de partilha e muito compensador. “Para mim, Jorge Drexler é um dos grandes autores do momento, que tem uma capacidade de escrita e de composição extraordinária, assim como uma sensibilidade invulgar. Conhecendo o trabalho dele, sempre achei que gostaria de o conhecer melhor e trabalhar com ele seria um sonho… que acabou por acontecer por generosidade do Jorge, que aceitou cantar com uma cantora que não conhecia”, relembra.

Um dueto que muito marcou a cantora, não só pelo timbre mas também pela conjugação: “Ambos tivemos a tentativa de encontro, porque dois cantores que sejam solistas têm que se encontrar para cantarem em conjunto, sem se sobeporem”. No final, Susana Félix confessa que esta experiência só a “despertou para o facto de que às vezes estas coisas acontecem à distância da coragem de se enviar um e-mail ou de se tentar fazer um contacto. Nada é impossível…”.

Um virar de página

Produzido por Renato Jr. e Nuno Rafael, Procura-se, é uma viagem pelo Universo de Susana Félix (autora e compositora) e para além da participação de Jorge Drexler tem ainda a cumplicidade de nomes como Steve Jansen (ex-Japan), João Cabrita e Carlos Tê que assina a letra de “Meia palavra”. O álbum inclui ainda duas versões, uma de Marcelo Camelo (Los Hermanos) e outra dos Xutos e Pontapés.

Este novo trabalho afasta-se das sonoridades mais acústicas dos últimos trabalhos e mostra uma Susana Félix mais electrónica: “Foi um virar de página e uma forma de arriscar por caminhos que nunca tinha percorrido. Para não deixarmos que a carreira se torne estanque temos de fazer qualquer coisa de novo e não acharmos que já fizemos tudo e já sabemos tudo… se assim fosse o trabalho estava acabado. Todos temos que nos reciclar na vida e isso significa que às vezes temos que fazer escolhas diferentes e caminhar por caminhos diferentes, fugindo assim à nossa zona de conforto”.

Apesar de ter sido um desafio arriscado, foi uma aposta ganha, já que a cantora tem tido um bom feed-back do público, como a própria afirma: “Há pessoas que até agora nunca tinham curiosidade de ouvir os discos do principio ao fim e com este trabalho acabam por ter um despertar diferente para a música que faço”.

Susana Félix recorda ainda a forma despreocupada com que este disco foi feito, de certa forma foi como “brincar outra vez com as canções e não fazer aquilo que já sabia que resultava”. “De repente é como aprender a fazer um desporto novo, em que nos dois primeiros dias ninguém tem jeito para nada, mas ao terceiro dia começa-se a ganhar o jeito e a ganhar prazer… foi muito bom, garante a cantora.

Numa altura de mudança do país e do mundo, Susana Félix canta – no tema “A idade do céu” – “… calma, tudo está em calma, deixa que o beijo dure, deixa que o tempo cure…”, uma mensagem que a cantora considera pertinente, principalmente se fizer com que algumas pessoas parem para pensar: “Apesar de nada estar em calma, é importante que exista calma, principalmente em situações como esta, em que temos que pensar, fazer uma pausa e encontrar calma para não nos deixarmos contagiar pelo pânico… o que é fácil acontecer”. No entanto, Susana Félix sublinha que com isto não quer dizer “que as pesssoas não se manifestem, muito pelo contrário, as pessoas têm que pensar sobre o assunto e têm que reorganizar as suas ideias, mas nunca perdendo a calma”.

Depois da música as jóias

Com o álbum já lançado e a ‘voar’ sozinho, Susana Félix foi entretanto desafiada pelo designer de jóias Torcato Santos e pela empresa Wings of Feeling a lançar uma linha de jóias em prata e ouro, uma colecção de pulseira, fio (colar), brincos e anel inspirada nas ilustrações da capa do último disco, criadas por Diana Dias. Um desafio que se prende com o facto de haver algo em comum entre as canções e as jóias e que levou a cantora a aceitar de bom grado o convite: “Para já porque sou muito feminina, mesmo no acto de criação das minhas letras, que falam muito de um Universo feminino… do meu e as jóias têm tudo a ver com esse universo. As jóias marcam muito certos momentos da vida das pessoas, da mesma forma como as músicas também o fazem e não deixam de ser duas jóias e duas formas de arte”, explica.

Feitas à imagem da cantora, as jóias são de uma linha muito simples que anda sempre à volta de uma forma tão inocente como um coração. “Gosto de peças que marquem mas que não sejam exageradamente exuberantes e a ideia do design destas jóias tem a ver com a capa do álbum e com as ilustrações do booklet, em que existe como que um logotipo do Procura-se, que é uma lupa à procura de um coração e à procura do que é esencial para cada um.

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