SudoesteTMN: festival encerrou com a maior afluência de sempre

Foi com 41 000 pessoas que terminou a 14ª edição do Festival Sudoeste, que durante cinco dias levou vários milhares de pessoas à Herdade da Casa Branca, no Concelho de Odemira, terminando em grande, ao som de David Guetta, Massive Attack e Beirut (recebido quase como um herói).

No campismo tomaram-se os últimos banhos, arrumaram-se as tendas e trocaram-se os contactos com amigos de circunstância, para o caso do destino os voltar a juntar. No recinto do festival era tempo da última corridas aos brindes, idas às compras (nas tendas de “artesanato”), última volta na montanha russa, ou queda vertiginosa no downloader.

Depois de trouxas arrumadas, foi só curtir até às tantas e aproveitar os últimos concertos antes da debandada geral já pela madrugada. As tendas sujas e o amontoado de carros (não menos sujos) no parque de estacionamento junto à Herdade da Casa Branca são o último postal ilustrado do Sudoeste.

No último dia de festival, as hostes abriram com Martina Topley-Bird, que actuou no Planeta Sudoeste para um público que observava atentamente a musa de Tricky. “Lying”, “Sandpaper kisses” ou “Intro” foram algumas das canções que se ouviram, em que se fez acompanhar por um músico na bateria e guitarra, vestido com um fato de ninja, apenas com os olhos à vista. Mais tarde, a cantora voltaria a subir ao palco com os Massive Attack, desta vez já no Palco TMN.

Pelo terceiro ano consecutivo, após Camané em 2008 e Mariza em 2009, este ano foi a vez de Carminho brilhar no palco Planeta Sudoeste. A jovem fadista arrancou rasgados aplausos e o silêncio foi respeitado, pois era da canção tradicional portuguesa que se tratava.

De vestido longo, negro, Carminho foi recolhendo simpatias de uma tenda bem composta, com temas como “Fado Rosita”, “Alfama” ou “A Velha Tendinha” (a história de uma tasca de Lisboa, celebrizada por Hermínia Silva), mas não teve problemas em deixar o protagonismo para os músicos que a acompanhavam (guitarra portuguesa, viola e viola baixo). Uma sequência de solos foi recebida com tanto entusiasmo quanto o esforço da cantora ao atirar-se sem rede a “Alfama”.

Pelo mesmo palco passaram ainda Tiago Bettencourt & Mantha e os tão aguardados Beirut, que proporcionaram um dos momentos mais altos do Palco Planeta Sudoeste, com temas como “Nantes”, proporcionando uma reacção bastante efusiva por parte do público a Zack Kondon.

Neste último dia de festival, o Palco Sapo Positive Vibes voltou a ser dos mais concorridos e animados, com as actuações de B!rd, The Steel Pulse, The Wailers e Pow Pow Movement, podendo-se afirmar com toda a certeza que o reggae ganhou um lugar muito especial neste festival, tão próximo do mar.

Já no palco principal, o primeiro grupo a actuar foram os Peixe:Avião, “uma banda do Norte, mais precisamente de Braga”, segundo apresentação dos próprios. Encantados com “a oportunidade e o privilégio” de actuarem na Zambujeira do Mar, numa noite de “concertos bastante bons”, os minhotos serviram, por entre as baforadas de calor que se fazem sentir no recinto, doses generosas do rock sério, emocional e algo exploratório que gravaram no primeiro álbum – 40.02 – e que, pelas amostras partilhadas neste fim de tarde, prometem continuar a praticar no segundo disco.

Previsto para 20 de Setembro, Madrugada foi antecipado, no Sudoeste TMN, pelos temas “No Jogo da Quimera” e “Acordo”. Visualmente muito discretos e musicalmente empenhados, os Peixe:Avião foram recebidos com simpatia pela plateia.

Seguiu-se Mike Patton acompanhado pela Orquestra do Algarve, num registo diferente do habitual. Ao contrário dos Faith No More, banda da qual é vocalista, no álbum Mondo Cane, Patton dá voz a versões de música pop italiana dos anos 50 e 60, como por exemplo “Il cielo in una stanza”, apesar de não ter faltado o megafone ou as sirenes que estamos habituados a vê-lo usar nos concertos da sua banda de sempre.

O magnetismo do artista foi puxando o público para o palco principal, decerto movido pela curiosidade em relação a este novo projecto, que tem o mesmo Patton de sempre, pleno de energia e virtuosismo vocal.

Quando os franceses Air entraram em palco, às 23h05, decorriam os concertos de Beirut, no Planeta Sudoeste (um dos mais aguardados do dia), e The Steel Pulse, no Positive Vibes, ambos bastante concorridos. Por isso, para muitos, o início do concerto de Air passou completamente ao lado.

Acompanhados na bateria por Alex Thomas, os Air trouxeram temas como “Playground love”, da banda sonora do filme As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, “Don´t be light”.ou “Cherry Blossom Girl”, entre outros de influência electrónica.

“How does it make you feel?” e “Sexy boy” foram deixadas para o final, de uma actuação a que muitos assistiram sentados, guardando energias (quiçá?) para os concertos seguintes.

E um dos tão esperados momentos do dia chegou, com os Massive Attack a entraram em palco com “United Snakes”, e logo à segunda música trouxeram Martina Topley-Bird para “Babel”, envolvida em luzes azuis, bem diferente de como se apresentou durante a tarde. Temas do novo álbum Heligoland e outros êxitos antigos desfilaram uns atrás dos outros em frente ao público.

O grupo fez-se ainda acompanhar por Deborah Miller e Horace Andy, cuja voz rouca e profunda ouviu-se também em “Girl I love you”, com letras, números, nomes, contagens, mensagens políticas e espirituais a passarem no ecrã luminoso ao fundo do palco.

“Risingson” foi a primeira música de Mezzanine a ouvir-se no recinto, e desde logo a plateia agitou-se. “Teardrop”, “Mezzanine”, “Inertia Creeps” e “Angel”, para gáudio do público, que se mostrou um tanto contido, excepto para pedir o encore. O grupo cantou ainda “Teardrop”, com novos arranjos na voz de Martina Topley-Bird.

“Safe from arms”, do disco de debute Blue Lines, veio pela voz de Deborah Miller, a tomar o lugar de Shara Nelson, na versão original. Nesta altura corriam pelo ecrã luminoso citações de Goebbels ou Estaline.

“Inertia Creeps” antecedeu o encore, com vários títulos de notícias portuguesas a surgir no ecrã: “José Sócrates tem sex appeal” ou “casamento gay no Alentejo” foram as que fizeram o público esboçar maiores sorrisos. A terminar os temas “Splitting The Atom”, “Unfinished Sympathy” e “Atlas Air”.

Para alguns a noite terminou com o trip-hop dos Massive Attack, mas para a grande maioria de resistentes ainda havia que dançar ao som de David Guetta, um dos nomes mais ouvidos entre os festivaleiros.

O recinto transformou-se numa enorme discoteca ao ar livre, os balões, em escada até ao céu, (que decoraram o recinto ao longo dos vários dias), ondulavam ao sabor do vento, e Guetta mobilizou a multidão com as suas batidas e remisturas de êxitos como “Smack my bitch up”, dos Prodigy, ou a mais que rodada “I gotta feeling”, dos Black Eyed Peas e a música fez-se ouvir até às 4h00 da manhã.

Na Groovebox a noite também terminou em alta, com as actuações de Soul Clap, Hugo Santana, Dyed Soundorom e Johnwaynes Live, já passava das 6h00 da manhã

Ao todo, esta edição foi marcada por 70 concertos, distribuídos por quatro palcos, e a transmissão de alguns deles em directo, pela primeira vez, na página da TMN no Facebook, no Meo Mobile e no portal da tmn para telemóvel.

Por aqui passaram cerca de 25 000 campistas (segundo dados oficiais), uma grande presença de festivaleiros espanhóis (quer tenha sido pela proximidade com Espanha, pelo cartaz ou pelo preço dos bilhetes, a verdade é que o castelhano foi a segunda língua mais falada no recinto), pelo sucesso do palco Sapo Positive Vibes, pela enchente e grande espectáculo de Mika e David Guetta e até pela derrota do Benfica frente ao Porto (por 2-0), que prendeu muitos festivaleiros aos diversos ecrãs espalhados pelo recinto.

No ar ficam as saudades destes últimos dias, e a promessa de uma próxima edição em 2011, no princípio de Agosto, como já se tornou tradição.

Texto de Elsa Furtado e Cristina Alves
Fotos de Francisco Lourenço, Temo Marques e Elsa Furtado

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