Saramago: a lembrança na hora da partida

Legado de livros, adaptações ao cinema e uma fundação

O escritor e Prémio Nobel da Literatura 1998 faleceu esta sexta-feira, aos 87 anos, na sua casa em Tías, na ilha de Lanzarote (Canárias), não chegando desta forma a assistir à estreia da sua terceira adaptação ao cinema. Depois de Jangada de Pedra (2000) de Georges Sluizer e Ensaio Sobre a Cegueira (2008) de Fernando Meirelles, Embargo, de António Ferreira, teve antestreia no Fantasporto em Março deste ano e, se se mantiver o plano de lançamento depois da morte de Saramago, será estreado em sala a 30 de Setembro deste ano.

Embargo adapta o conto homónimo, incluído em Objecto Quase (1978), escrito por Saramago no contexto da crise petrolífera de 1973, desencadeada pelo conflito israelo-árabe do Yom Kippur.

Sem intervenção de Saramago durante todo o processo, o filme é uma produção da ZED Filmes e tem como protagonista Filipe Costa, actor que é também teclista dos Sean Riley & The Slowriders.

Além da sua obra (num total de 35 livros, entre romances, livros de poemas e viagens, autoria de peças teatrais, crónicas, contos, diários e memórias e um livro infantil), Saramago deixa uma fundação com o seu nome que funcionará na Casa dos Bicos, tendo como objecto – como se lê nos estatutos – “promover o estudo da obra literária do seu Instituidor bem como da sua correspondência e espólio e respectiva preservação”.

Governo decreta dois dias de luto nacional pela morte de Saramago

O Conselho de Ministros declarou luto nacional nos dias 19 e 20 de Junho, pela morte de José Saramago. O Governo considera que esta “justa homenagem” é a melhor “forma de expressão de pesar pela morte do escritor”.

O comunicado do Conselho de Ministros, que dá conta do luto, classifica José Saramago como o “principal responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa”.

Um avião C-130 da Força Aérea transportará amanhã o corpo de José Saramago para Lisboa, estando prevista a sua chegada ao Aeroporto de Figo Maduro às 12h30, seguindo depois em cortejo para o Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa. Aí permanecerá em câmara ardente até às 12h00 de domingo, de onde sairá para o cemitério do Alto de São João, sendo depois cremado.

Reacções

José Saramago morreu, mas as palavras que hoje nos trouxeram a notícia da sua morte são as mesmas que o mantêm vivo nos livros, nas crónicas, nas peças teatrais que escreveu e nas intervenções públicas que fez.

Saramago não era um homem de meios termos. Controverso e genial, austero mas profundamente solidário era detentor de uma cultura vastíssima espelhada na sua imensa obra.

O seu desaparecimento físico aos 87 anos deixa-nos tristes. Mas, mais pobres não ficamos. O seu legado é inestimável. Além do Prémio Nobel que o distinguiu em 1998 e que projectou o nosso país internacionalmente, José Saramago era um homem empenhado.

Lisboa foi tema central em alguns dos seus livros e, a nossa cidade a dada altura da sua vida, uma causa que abraçou. No ano de 1990, José Saramago foi presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, quando Jorge Sampaio foi presidente da câmara.

É para Lisboa uma honra recebê-lo uma vez mais no Salão Nobre dos Paços do Concelho. A sua ética de intervenção deixa-nos o seu testemunho: “As coisas não acontecem por si mesmas. É preciso fazê-las acontecer”.

António Costa – Presidente Câmara Municipal de Lisboa

Senti um imenso pesar quando recebi a notícia da morte de José Saramago. A cultura portuguesa e o mundo perdem o Escritor José Saramago, mas a sua obra e o seu pensamento singular e livre sobrevivem. E a persistência da sua voz através dos tempos, mais do que pela consagração pelo Prémio Nobel, decorre da força e sensibilidade que marcam os seus livros, persistindo a obra de um grande escritor de dimensão universal.

Catarina Vaz Pinto – Vereadora da Cultura Câmara Municipal de Lisboa

Por Cristina Alves

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