Miguel Ângelo fala de «Um Lugar ao Sol»: “Uma autobiografia de carreira muito optimista”

Em Um Lugar ao Sol, publicado com a chancela da Arcádia, Miguel Ângelo escreve a sua autobiografia, relatando o seu percurso nos Delfins,que depois de 25 anos de carreira chegaram ao fim com um último concerto na Baía de Cascais, no dia 31 de Dezembro de 2009. Convictos que uma carreira não acaba numa data nem se fina com um fogo-de-artifício, o C&H entrevistou o cantor e confirmou que esta carreira apenas mudou de velocidade e de rota e que só vai parar quando o motor ceder ou a gasolina acabar.

Mais do que uma autobiografia dos Delfins, trata-se de uma autobiografia de carreira, de tudo aquilo que Miguel Ângelo fez ao longo de duas décadas e meia e que passa pela televisão, por outros projectos musicais e por coisas que têm a ver com teatro, cinema e animação. “Achei que se calhar era uma boa altura para deixar escritas uma série de vivências, antes que me esquecesse. Tive a intenção, pelo menos, de não me limitar à minha carreira, até porque ela acompanhou muito do que se passou em Portugal em termos de indústria – a indústria da música ao vivo, nos anos 80, era uma coisa ainda muito pequena e rudimentar. Desta forna, achei piada, sem grandes pretensões sociológicas, em fazer reflexões sobre como é que andava a rádio, a televisão e os concertos ao vivo, tudo coisas que tinham pessoas, tal como eu, a desbravar terreno”, explica Miguel Ângelo.

Não se considerando uma pessoa nostálgica, o cantor garante que tanto o livro como a própria tournée de despedida – 25 Anos, 25 Êxitos e Um Abraço – são muito optimistas e muito para cima. O autor de Um Lugar ao Sol recorda que “o melhor comentário que podiam fazer, e que ouvi muitas vezes no fim dos espectáculos, era dizerem que nem parecia que a banda ia acabar, porque nós estávamos com muita energia e vitalidade. Realmente, tentei que não caisse para esse lado, até porque há muitas histórias boas e más no livro e, em ambos os casos, não quis dar um carácter sensacionalista a tudo isto. Por isso tratei-as com alguma proximidade, mas sem empolar demasiadamente as coisas más e também sem pôr num pedestral o que nos aconteceu de muito bom”.

Novo projecto lançado em Março

Depois de 25 anos com os Delfins, o cantor e compositor deixa-nos assim um testemunho precioso da sua carreira, numa etapa da sua vida em que prepara novos projectos musicais. Aliás, antes mesmo de acabar o ano de 2009, Miguel Ângelo já estava em estúdio a produzir uma banda que vai ser lançada talvez em Março deste ano, que se chama Os Lábios, “uma banda de música portuguesa, que canta em português”, segundo faz questão de salientar. Apesar de ainda não poder falar muito sobre este projecto colectivo, o cantor adianta que “junta pessoas de proveniências diferentes da música portuguesa e que vai ser um projecto diferente, que me vai permitir contactar com outros movimentos”.

Para finais de 2011 fica adiada a possibilidade de começar a trabalhar a sério, ou seja, começar a divulgar uma carreira a solo, que, segundo garante “será obviamente por aí que passará o meu futuro na música, sempre nos contornos clássicos das canções, que foi aquilo que sempre gostei de fazer nos Delfins e que fiz também com os Resistência e com outros grupos”. Para Miguel Ângelo, escrever letras de músicas e criar estruturas de canções é portante uma certeza.

Para recordar ficam as viagens, os concertos e os discos gravados nos quatro cantos do Mundo e vendidos às centenas de milhar como nenhum outro grupo, até hoje, em Portugal.

Aliás, as viagens são o que deixa mais saudades ao autor de Um Lugar ao Sol, que recorda a sorte que teve com os Delfins e com os Resistência, “grupos com os quais tive a possibilidade de conhecer mais de 30 países, a maioria graças a gentis convites para tocar junto das comunidades portuguesas espalhadas por todo o Mundo”.

Em relação à separação dos Delfins – precipitada pela saída de Fernando Cunha ano e meio antes, que por ser um dos elementos fundadores também tinha direitos especiais sobre o nome da banda –, o cantor admite que, apesar de não ter sido uma decisão profissional difícil, já no que toca à gestão de uma série de afectos que existiam na banda as coisas não foram assim tão fáceis. “Nos últimos anos acho que percebemos que para se continuar com a banda teria que se adoptar uma postura mais cristalizada perante a criação. Isto acontece com muitos grupos, como os Roling Stones, ou seja, quando se tem muitos anos de carreira, as pessoas que vão ver os concertos querem sempre ouvir certas canções e nós estaríamos ‘condenados’ – embora fosse uma boa condenação – até ao fim da vida a tocar temas como a «Maria Cascais», o «Anjo Selvagem» ou o «Lugar ao Sol», porque são aquelas canções que definem uma época e marcaram muitas pessoas”, explica Miguel Ângelo.

Foi assim que, “com a maior das levezas” decidiram pôr fim aos Delfins e “fazer algo que não é comum, que foi anunciar, quase com um ano e meio de antecedência, o fim da banda, preparando o último disco de originais, a trounée de despedida e a gravação do último DVD de uma maneira que não deixasse dúvidas e que não fosse confundida com uma manobra de marketing, muito usual para depois os grupos voltarem passado um ano ou dois anos”.

Apesar dos Delfins terem chegado ao fim, o cantor fica contente ao perceber que as canções, pelo menos as mais importantes, “continuam a ser ouvidas e agora por gente mais nova, que nem sequer as viveu, o que nos faz pensar que nossas canções vão viver para além da vida dos Delfins. Por isso, não temos que nos reformar já, até porque tivemos a sorte de começar a carreira muito cedo, o que nos dá ainda a liberdade de partir noutras direcções”.

Fã das novas tecnologias

No futuro, Miguel Ângelo admite vir a desenvolver projectos “com os quais nem sequer sonhava há uns anos”, tudo graças às novas tecnologias. “Imagino-me muito ligado à área tecnológica para poder vestir ou cenografar um livro, um disco ou uma canção. Acho piada aos avanços tecnológicos e, ao contrário de muita gente, considero muito interessante a ‘desconstrução’ da indústria musical, que traz possibilidades fantásticas”. O ex-Delfim adianta ainda a hipótese de continuar a desenvolver no panorama musical linguagens paralelas de instrução pública e de distribuição directa, sempre junto do grande público: “Actualmente temos várias redes sociais, como o Facebook e o Twitter, que, mais do que nunca, nos colocam mais perto uns dos outros, o que, bem usado, pode ser uma ferramenta óptima, pelo menos enquanto não começar a ser muito utilizada comercialmente. Por enquanto ainda são ferramentas muito directas e honestas, sem existirem campanhas de marketing de milhares de euros… é uma imagem ilimitada e o futuro da comunicação passa muito por aí”.

Uma garantia o cantor deixa aos seus fãs, é que o fim dos Delfins não vai significar viver do que já está feito: “interessa-me continuar a pesquisar e trabalhar todos os dias e ouvir toda a música nova que sai e a ver concertos, teatro, cinema e manter a chama viva dentro de mim”.

Texto e fotos de Cristina Alves

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