Marco Rodrigues prova no seu novo CD que “o fado também pode ser alegre”

Depois de Fados da Tristeza Alegre (2006), o fadista Marco Rodrigues editou hoje  (13 de Setembro), o seu segundo álbum, Tantas Lisboas, através da Universal Music Portugal. Um álbum que tem como convidados Carlos do Carmo e Mafalda Arnauth e entre os compositores e letristas Tiago Machado, Boss AC, Tiago Torres da Silva e Inês Pedrosa.

Em entrevista ao C&H, o músico confessou que apesar de considerar o fado um género musical “incrível”, nem sempre assim foi. Até aos quinze anos, Marco Rodrigues – que vivia em Arcos de Valdevez – apenas sabia que havia uma senhora muito conhecida chamada Amália Rodrigues. Actualmente considera que a “Amália é incontornável para qualquer pessoa que faça do fado o seu estilo vida e mesmo para todos os que gostam de grandes cantores e de grandes intérpretes”.

O ponto de viragem foi a sua vinda para Lisboa com a mãe, que coincidiu com a estreia do jovem fadista João Pedro com “Lenda da Fonte”, que chegou a ser finalista do concurso italiano “Bravo, Bravissimo”. “Nessa altura ouvia-se muito fado na televisão, o que fez com que esse género musical se tornasse mais mediatizado. Um dia, estava eu em casa a trautear e a minha mãe achou que eu tinha jeito para cantar e inscreveu-me na Grande Noite do Fado, que eu vim a ganhar no Coliseu de Lisboa”, conta.

Dez anos se passaram e Marco Rodrigues já deu provas que veio para ficar. No novo álbum, apesar de não ser “pretensioso para tentar mudar alguma coisa”, o fadista admite que apresenta a sua “forma de ver este género musical”. “Neste CD tenho um tema que fiz no qual queria uma música que tivesse uma matriz de fado, que as pessoas identificassem mesmo não tendo as habituais características. Eu queria fazer um tema que falasse sobre amor, mas de um amor feliz”, esclare Marco Rodrigues, referindo-se ao tema “O Inverso do Fado”, no qual se pode ouvir uma passagem que diz: “Ao pé de ti a noite faz-se claridade… e vem surgindo pela rua a cada instante”. Isto é aquilo que o fadista classifica como “fado, mas não o cliché, já que tem uma letra fresca e este género musical também pode ser alegre”, defende.

A “canção” como única alternativa ao fado

Em relação ao primeiro álbum, Marco Rodrigues assume-se actualmente como uma pessoa mais madura, que vê em Tantas Lisboas um CD de continuidade, assim como também será o próximo. O fadista confessa que o primeiro trabalho foi o álbum possível na altura, “com a ajuda do produtor Ricardo Cruz, que conseguiu fazer um trabalho fantástico apesar de toda a inexperiência que eu tinha de gravar em estúdio. Este novo trabalho é a continuação e graças ao amadurecimento que atingi nestes quatro anos, das influências que tive ao ouvir outras músicas, da produção do Tiago Machado e do background que ele também traz, fizeram com que este disco fosse muito mais maduro e mais trabalhado”.

No entanto, ao ouvirmos Tantas Lisboas percebemos que, quando comparado com Fados da Tristeza Alegre, há diferenças a todos os níveis: na produção, nos temas, nas parcerias, nos escritores e até nos instrumentos utilizados.

Fora do fado, Marco Rodrigues apenas se imagina a cantar “canção” e a cantar temas musicados, mas sempre com a mesma matriz, até porque é o estilo de música que canta há vários anos. “É um pouco inevitável que a minha forma de interpretar leve as pessoas a sentirem alguma coisa de fado. Mas sinto-me muito confortável a cantar a ‘canção’, como já a cantou o Carlos do Carmo, o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo e o Carlos Mendes”.

Depois das parcerias com Carlos do Carmo e Mafalda Arnauth e de ter cantado em desgarrada com Mariza, Marco Rodrigues acalenta agora o sonho de fazer um dueto com o baixista camaronês Richard Bornat, do qual é fã. “Era uma mistura engraçada, porque ele toca world music e música tradicional com várias influências”, explica o fadista, que no entanto não se desconcentra da sua prioridade do momento: “construir uma carreira”.

Tantas Lisboas apresenta alguns clássicos – como o lendário “Fado do Estudante” (interpretado por Vasco Santana no filme A Canção de Lisboa) – e muitos originais, incluindo dois temas com música composta pelo próprio Marco Rodrigues. Aliás, neste álbum o fadista – e tal como acontece muitas vezes ao vivo – acompanha-se, também, à viola.

“O fado não está morto”

No que toca ao fado, Marco Rodrigues não se considera um tradicionalista, até porque, segundo explica, “não nasci nos seus meandros, já que não sou de Lisboa, nem tenho família neste meio. No entanto, sou fã de quem realmente é tradicionalista e canta os fados tradicionais e os estiliza de uma forma natural, como o Fernando Maurício fazia”. Alfredo Marceneiro também é uma referência, enquanto compositor e intérprete, “mesmo não achando que ele seja um ‘vozeirão’ deste género musical”. A par destes estilistas, o fadista não deixa também de salientar a importância de uma série de novos valores, que assegura “darem cartas e mostrarem que o fado não está morto”.

Graças a fadistas como Mariza, Mafalda Arnauth ou Ana Moura, Marco Rodrigues considera que se está a passar por uma fase fantástica. “O fado passou por uma fase menos boa no pós-25 de Abril, altura em que este género musical estava completamente em desuso, principalmente entre os jovens. Mas acho que houve um abanão, muito por ‘culpa’ de uma nova geração de fadistas e da globalização, que fez com que chegasse até nós a world music. Só assim se percebeu que num país pequeno como Portugal havia uma música que tinha um conteúdo fantástico, o fado”.

O fadista defende ainda que, “por vezes, os portugueses também precisam que as nossas coisas tenham primeiro sucesso ‘lá fora’ para depois começarem a ser conhecidas ‘cá dentro’. E nisso, artistas como a Mariza ajudaram a que agora muitos jovens já queiram aprender a cantar, queiram ir às casas de fado e até gostem do ambiente que lá se vive”.

A cidade de Lisboa está presente, naturalmente, em muitas canções do álbum. De todas elas, Marco Rodrigues destaca “O Homem do Saldanha”, um dueto com Carlos do Carmo, com letra de Boss AC e música de Tiago Machado. “Este tema fala de uma personagem típica de Lisboa, que é aquele senhor que passa as noites no Saldanha a acenar às pessoas, com quem me identifico, porque vivi na periferia dessa zona. E o Tiago Machado, que faz parte da banda do Boss AC, pediu-lhe a letra para o tema, já que fazia todo o sentido ser ele a escrever sobre uma figura urbana, sendo ele também um cantor de música urbana. Depois disso, surgiu a oportunidade de fazer o dueto com o Carlos do Carmo – que além de meu amigo pessoal e de sempre ter sido uma referência para mim, foi através dele que comecei a ouvir fado – e tudo se conjugou na perfeição”.

Para além de Boss AC, há mais dois poetas contemporâneos que dão um importante contributo ao novo álbum de Marco Rodrigues: Tiago Torres da Silva (que assina quatro letras) e Inês Pedrosa (que assina uma letra): “Eu não conhecia a Inês Pedrosa até há dois anos, quando participei no Festival RTP da Canção a convite do Tiago Machado, altura em que ela escreveu a letra da música “Em Água e Sal”, com que participei. Tendo em conta que as músicas que vão ao festival normalmente falam sobre Portugal, ela escreveu sobre a nossa portugalidade de uma forma fantástica, muito pouco cliché”.

Paralelamente com o seu trabalho em estúdio e em palco, Marco Rodrigues é ainda fadista e violinista residente no Café Luso – casa na qual se estreou como profissional e onde começou “a ter mais contacto com o fado” –, para além de acumular estas funções com a de director artístico da casa.

Por Cristina Alves
Fotos gentilmente cedidas pela Universal Music

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