A Força E O Encanto De Dulce Pontes Na Apresentação De Peregrinações Num Tivoli Esgotado

Reportagem de Elsa Furtado (Texto e Fotos)

Foi um palco quase em penumbra, com um piano vazio que aguardava Dulce Pontes esta noite, no Teatro Tivoli em Lisboa, no seu regresso aos palcos da Capital. A acompanhá-la sete músicos, os mesmos que a têm acompanhado ultimamente em peregrinação, ou será digressão?, nos últimos meses por alguns palcos pela Europa fora.

Errante como um peregrino, alguém que caminha em busca de algo pela vida e pelo mundo, numa descoberta sem fim, assim tem vivido Dulce Pontes nos últimos tempos, apesar de ter encontrado refúgio entre as pedras e as montanhas de Bragança e Trás-os- Montes, o seu espírito e a sua música não pararam, nem fixaram residência, cruzando fronteiras sempre que necessário.

E foram estas peregrinações, estas errâncias e vivências que inspiraram o trabalho Peregrinações. Este não é um álbum simples, ou com música de massas, e de um estilo só, este é um trabalho mais profundo, que vai às raízes de Dulce e de nós todos. Vai buscar a inspiração à terra, nos sons e melodias, mas também à História e ao passado, misturando-o com o dia a dia de quem vive num paraíso perdido, ou no exotismo de outras paragens.

“La Peregrinación” de Félix Luna e Ariel Ramirez foi o primeiro tema da noite, tranquilo, intimista com Dulce ao piano, seguiu-se “Gritos” de Amália Rodrigues e Carlos Gonçalves, também ele ao piano. E é neste registo que segue o tão aguardado concerto. “Nevoeiro” com letra de Fernando Pessoa é outro dos temas, seguindo-se “Vá de Retro” – o último da artista nas teclas.

E o alinhamento começou a entrar numa fase mais animada, com inspirações galaico-portuguesas, e tradicionais. Em “Cantiga da Roda” Dulce deixa o piano, dando lugar a Juan Carlos Cambas, e começa a dançar e a rodopiar, num vestido longo, com o seu cabelo longo solto e descalça, tal como se estivesse a dançar no campo. E ouvem-se aqui as primeiras palmas da noite, palmas de acompanhamento dos ritmos alegres e vivos. “Canto do Risco” e “Bailados do Minho” completam a trilogia de músicas animadas, em que a participação do público não se fez rogada.

Seguiram-se “Ele É Que Canta A Mim”, e “Meu Amor Sem Arnjuez”, com direito a aplausos no final. E é em castelhano que o concerto avança para o fim. “La Legienda Del Tiempo” de Federíco Garcia Lorca/Ricardo Pachón, “Alfonsina Y El Mar”, “Ay ondas que eu vin veer/Ondas do Mar de Vigo” de Martin Codax são os temos interpretados, todos de muito agrado do público.

Para o fim ficou o tango “Maria de Buenos Aires” de Horacio Ferrer e Astor Piazzolla, com direito a uma brincadeira por parte dos músicos que acompanharam Dulce nesta noite de regresso, fazendo ouvir os acordes do tema da Pantera Cor de Rosa, de Henry Mancini.

E foi uma Dulce Pontes bem disposta e feliz, que deixou o palco entre uma ovação de pé, na companhia de Marta Pereira da Costa (Guitarra Portuguesa), Davide Zaccaria (Violoncelo), Daniel Casares e André Ramos (na Guitarra Flamenca), Paulo Silva (na Bateria e Percussão), Hubert-Jan Hubeek (saxofone soprano) e Amadeu Magalhães (bandolim, flauta, gaita-de-foles, acordeão), para além do já referido Juan Carlos Cambas (piano).

Para o encore ficou reservado o tema que a tornou conhecida no mundo inteiro: a “Canção do Mar”, aqui interpretada com novos arranjos e nova alma. Para cantar com ela, Dulce chamou FF que se encontrava na plateia, surpreendendo assim tanto o público, como o próprio artista, que disse nunca ter conhecido pessoalmente, mas com quem trabalha à distância e admira muito.

E foi entre lágrimas, sorrisos, e muitas, muitas palmas que um Tivoli esgotado lhe dedicou, que Dulce Pontes deixou o palco, provando que continua a ser dona de uma grande voz e uma grande intérprete, para além de compositora, e muito querida do público.

O mesmo público (e muitos amigos) que esperou por ela quase uma hora depois do concerto acabar para a cumprimentar e receber um autógrafo seu.

Uma noite memorável sem dúvida para os fãs de Dulce Pontes e também para a artista nascida no Montido, residente em Bragança, mas voz do Mundo.

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