Daniela Mercury entre o samba e o fado ao vivo em Portugal

Reportagem de Tânia Fernandes

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Ainda não tinha pisado o palco do Coliseu de Lisboa, na passada sexta-feira e Daniela Mercury já tinha o público conquistado “Ó Daniela, cadê você? Eu vim aqui só p’ra ti ver!”.  É longa e intensa a relação da cantora brasileira com Portugal. Com descendência portuguesa, Daniela não só manifesta interesse pela nossa cultura, como preparou, nesta passagem pelo país, dois espetáculos com convidados muito especiais. Luís Represas, Camané, Teresa Salgueiro e os Batida aconchegaram o toque lusitano entre o axé, o samba reggae e os ritmos africanos.

A disposição do palco não é a habitual nos concertos. Aqui, os músicos encontram-se dispostos lateralmente, deixando o centro livre para toda a dinâmica que, aquela que é conhecida como o “furacão brasileiro”, traz. Descalça, de vestido flexível salta, canta, pula, rodopia e dança durante mais de duas horas e meia e não deixa transparecer vestígios de cansaço. Possível aos quarenta e sete anos de idade? Não há dúvida que sim!

Os antigos êxitos de “Feijão com Arroz” que a popularizaram em Portugal alternam os mais recentes do álbum que deu origem a esta tournée: Canibália – Ritmos do Brasil.

“Boa noite! Preparem-se para uma noite inesquecível” anunciou, e todas as pessoas que enchiam o Coliseu começaram a “tirar o pé do chão”. Partilha o grande espaço com um conjunto de bailarinos em coreografias bem ritmadas. “Benção”, “Preta” e “O Mais Belo/ Por Amor” abrem as hostes. “Ilé Pérola Negra” é antecedido de umas palavras sobre o orgulho das raízes multiculturais dos países. “Brasil, Portugal e todos os africanos, somos o mesmo povo!”.
Vira a página e homenageia a atriz e cantora portuguesa mais brasileira de sempre: Carmen Miranda. “O Que é Que a Baiana Tem?” é interpretada com os vídeos originais em pano de fundo, numa doce melodia de embalar.
Tréguas? Longe disso… “Vamos lá Lisboa, saltando de alegria!!!”.

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Depois de “Sol do Sul”, Daniela Mercury abre a porta ao primeiro convidado. Luís Represas vem cantar (e dançar!) “Minas com Bahia”. De seguida, os papéis invertem-se e ele, de guitarra na mão, guia a cantora brasileira através de “Foi como Foi”. Pelo meio, tempo para recordar a primeira experiencia conjunta em palco, num dueto que os juntou nas comemorações dos 500 Anos do Brasil.

O público acompanhou sempre a cantora, mostrando que não eram meros curiosos de música, mas fieis seguidores. Assim, as primeiras notas de “Nobre Vagabundo” foram recebidas com grande euforia, que quase duplicou com a entrada em palco de Camané. O fadista sambou e Daniela Mercury, num ato de reciprocidade cantou “Sei de um Rio”. Com evidente cumplicidade em palco os dois cantaram ainda “Sonho Possível”.

Ambiente mais calmo? Foi só o fadista sair para Daniela Mercury voltar a fazer subir o ritmo cardíaco dos presentes com “Rede”.

Teresa Salgueiro é a convidada seguinte, com a sua pose que transborda doçura e emociona a artista brasileira. “Quando chegou a hora de escolher a canção que íamos cantar juntas eu me emocionei” admite de olhos rasos de lágrimas. E fala da importância das mulheres cantoras e compositoras. “À Primeira Vista” de Elis Regina e “Lisboa” foram os temas interpretados por estas duas vozes femininas.
Arrumada a guitarra portuguesa, é hora de puxar para o palco os ritmos mais dançáveis. “Mas que nada” foi o início de nova vaga de agitação em palco.

E porque as músicas desta artista são uma permanente fusão de sonoridades, para este espetáculo ela trouxe também os ritmos africanos dos Batida. Ritmos tribais, primitivos e que puseram todo o Coliseu aos pulos! Daniela Mercury muda de roupa, os tons envolventes tornam-se mais vermelhos e a forte percussão toma conta do espaço, guiando os bailarinos.

 

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Os artistas convidados voltaram todos ao palco no início do encore para interpretar “Dona Canô”. E desafiaram-se, uns aos outros, para um pezinho de dança mais baiano. Os convidados retiram-se, mas Daniela Mercury não dá sinal de os querer acompanhar ”Vai começar o Carnaval!!!” e arrasa com uma forte versão de “Rapunzel”.

As luzes acendem-se logo a seguir a “Canto da Cidade”. A simpatia da cantora e alegria por estar em Lisboa é evidente. Despede-se, agradecendo a todos os que vieram assistir ao concerto, alguns de longe, como indiciam as bandeiras dos países que trazem.

Ninguém manifesta indignação pelo fim do concerto. Satisfeito, o público está também exausto. Algures, pelo meio da noite, atirou o convite: “Espero por vocês na Copa do Mundo!”. Há lugares sentados, certo?

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