Centro de Arte Moderna da Gulbenkian assinala 30º aniversário com mostra dedicada a Amadeo Souza Cardoso

Reportagem de Tânia Fernandes

CAM30_01A sensação de estranheza, quando se entra no wc e nos deparamos com os espelhos cobertos de papel pardo, passa a espanto ao entrar no cubiculo  privado e se começa a ouvir uma voz enigmática “Hello, are vou there?”. A instalação sonora de Luisa  Cunha nos sanitários é  uma das três centenas e meia de peças em exposição na Gulbenkian, reunidas para assinalar o 30º aniversário  do Centro de Arte Moderna (CAM).

Sob o signo de Amadeo. Um século de arte é  a exposição que inaugurou no final da semana passada  e se prolonga até ao dia 19 de janeiro. Apresenta obras que fazem parte da coleção da Gulbenkian, numa mostra atravessada por ideias como a ação do corpo, performance e palco, em duas abordagens distintas: uma moderna, outra contemporânea.

Os holofotes incidem sobre a apresentação  das obras de Amadeo Souza  Cardoso, presentes na coleção, mostradas aqui quase na totalidade, incluindo desenhos de esboço de algumas obras emblemáticas, bem como uma área dedicada à heráldica que nunca foi apresentada ao público. São brasões de cidades francesas, pintados pelo artista, cuja finalidade é  ainda desconhecida.

Andaria a arte portuguesa a reboque das correntes internacionais, ou fruto de contatos com outros artistas, estaria Amadeo de Souza Cardoso a par do que outros movimentos faziam e trabalhou em sintonia com as novas tendências artísticas? Questões que se colocam ao atravessar está ala mais centrada no grande artista plástico do modernismo portugues e se atenta à data de conclusão de algumas peças chave. Para Isabel Carlos, diretora do CAM, é  evidente que os artistas eram conhecedores do trabalho uns dos outros e utilizavam influências estéticas que desenvolviam de acordo com as suas tendências artísticas. “O cubismo de Amadeo Souza Cardoso é  muito mais colorido, com tons mais vivos do que qualquer outro” refere.

No hall destaca-se um núcleo importante da coleção, composto por obras de arte britânicas, estabelecendo um diálogo entre a pop britânica e a portuguesa. A entrada faz-se entre a escultura de José Guimarães, passando o destaque para o corpo humano no vídeo performance de Helena Almeida. Depois, tudo se questiona. Passa-se pela escultura de Pedro  Barateiro “a plateia”, que exibe um conjunto cadeiras e fica-se na dúvida se irá acontecer ali algum espetáculo… A escultura de Antony Gormley, um corpo de chumbo no chão, de braços e pernas afastados, também não passa despercebida. À frente, temos trabalhos de Ana Jotta, artista que transforma muitas das peças do quotidiano na produção da sua obra.

No primeiro piso apresentam-se algumas das obras mais representativas da arte do século XX. Uma viagem pelas correntes estéticas através dos pincéis de Almada Negreiros, Eduardo  Viana, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Paula Rego, Marcelino Vespeira, entre outros.

As áreas comuns, como já referido com a proposta de Luísa Cunha no WC, são alvo de intervenção.”Sem degraus à sombra” é o nome da intervenção de Rodrigo Oliveira que permite que cada pessoa escolha a cor que pretende para fachada do CAM. No hall, à entrada da galeria de exposições temporárias um jogo de macaca desenhado no chão, sem fim, permite brincadeiras infinitas.

No mesmo espaço de passagem, ao lado, e com um grau de entendimento menos acessível está a obra de André Guedes “AIROTIV”. Trata-se de uma das mais recentes aquisições do CAM. Este trabalho teve origem numa residência do artista na cidade espanhola de Vitória. André Guedes foi à procura do antipoda de Vitória  e encontrou Churchtown, na Nova Zelandia, na época, a braços com a recessão. De lá trouxe mobiliário de empresas que faliram e se viram obrigadas a leiloar o espólio e toda a carga emocional que adquiriu com essa experiência. Deixou espaço para uma performance que acontece uma vez por mês, com a leitura de uma peça num ato de uma escritora neozelandesa.

Na galeria de exposições temporárias há uma interessante exposição sobre a interseção entre artes plásticas e cénicas. Não são  muitas as oportunidades para apreciar esboços  de figurinos realizados por figuras como Almada Negreiros ou Isadora Duncan.

Partir à descoberta da contemporaneidade através de peças das reservas da Gulbenkian  é a proposta do CAM nos próximos meses. “Sob o signo de Amadeo. Um século de arte” pode ser vista até 19 de janeiro no CAM da Gulbenkian, de terça-feira a domingo, entre as 10h00 e as 18h00. A entrada custa 5 euros  e é gratuita aos domingos.

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