Budapeste é Poesia que desaba por dentro

Por Margarida Vieira Louro

Walter Carvalho dirigiu e Leonel Vieira realizou o filme Budapeste, numa co-produção luso-húngara-brasileira, inspirado na obra homónima de Chico Buarque, com honras de anteestreia no Cinema São Jorge, em Lisboa, na passada quarta-feira, com a presença do realizador e dos actores portugueses.

Nos protagonistas contam-se as presenças de Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Gabriella Hámori, Paola Oliveira, a presença portuguesa está entregue a Nicolau Breyner e Ivo Canelas. De destacar a qualidade técnica da película, a luz e a fotografia, fazem deste filme uma obra de excelência por si só.

Adaptada a partir de uma obra brasileira , Leonel Vieira consegue transmitir ao público, nesta co-produção transatlântica a cultura do cinema europeu, que se alia à riqueza do vocabulário e da densidade do próprio argumento. A musica tradicional hungara, em destaque na banda sonora, transporta o publico para os ambientes e a cultura local. A palavra, aqui tem um espaço e uma alma que só um poeta pode entender e sonhar.

O filme começa com “Pensava que Budapeste era cinzenta, afinal é amarela” e é com esta simplicidade que se inicia a viagem do protagonista, que se aventura num país longínquo, numa realidade desconhecida.

José Costa é um ghost writer que ama a palavra, mas que não a assume como sua. A cidade de Budapeste entra na sua vida num acaso e fá-lo apaixonar-se pelo espaço e pela língua. Costa tem sede de conhecimento e leva-nos à realidade da cidade que começa na beleza do Danúbio, passa pela bebida tradicional palinka e pela adrenalina da roleta russa.

Ao conhecer Kriska numa livraria, encontra a sua guia no longo caminho de aprendizagem como homem e escritor. Seguindo-a pela cidade e pelavida Costa aprende húngaro de forma intuitiva.

No Rio de Janeiro, ele deixou Vanda, sua mulher, o filho e o best seller O Ginógrafo, estória que ele criara para o alemão Krabbe, por encomenda, que o editara em seu nome e passou a ser um best seller no Brasil. Mais tarde no filme, este livro vai ser protagonista de uma das cenas mais despudoradas, quando Vanda se toca com ele.

É na escrita de Costa que residem as imagens mais sensuais e belas do filme, como os corpos escritos, a água que escorre por eles.

Noutra realidade, Kriska, é a musa altruísta que o resgata de uma vida de deambulação sem destino, trazendo-o de volta ao mundo, dando origem à escrita do O Génio Secreto, com o seu nome impresso na capa, num reconhecimento do seu génio literário, numa língua e num país distante.

Este filme é “poesia que desaba por dentro”, em imagens, sons e diálogos, numa riqueza de emoções.

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