António Ole Regressa Ao Porto Com A exposição Corpo&Alma

Trinta anos depois da sua última exposição no Porto, o artista António Ole regressa à cidade com Corpo&Alma, que inaugura a 26 de maio na Galeria SALA 117. A mostra, que estará patente até 15 de julho, celebra os 50 anos do trabalho de um dos mais notáveis artistas africanos (1967-2017), promovendo uma ampla visão sobre uma obra que se distingue pelo seu caráter ecléctico e plena de consciência social.

Miguel von Hafe, crítico de arte e figura de relevo do panorama cultural português, lembra que António Ole “é um artista africano que definiu o seu percurso a partir de uma vivência multicultural: Angola carimba a sua matriz criativa, Lisboa foi plataforma de contatos profícuos e naturais na sua biografia e Los Angeles o reverso do expectável enquanto cidade eleita para um jovem africano de formação marxista”.

A presente exposição, continua Miguel von Hafe, “aponta para alguns dos temas que lhe são particularmente próximos”, frisando que o mundo de António Ole “é líquido, como o mar que atravessou com a frequência do curioso insaciável. Esse mar que definiu a história da vergonha civilizacional, esse mar que foi de partilha e conhecimento também. O que prevalecerá? Acreditemos que por instantes a arte nos pode ajudar a sublimar essa dúvida”. “António Ole carrega consigo a sabedoria dos avisados. Aqueles que sabem que a dúvida é a certeza dos sobreviventes”, conclui.

O desenho é a disciplina central do trabalho de António Ole e é aqui que assenta o conceito principal da exposição. Alma&Circunstância, uma série de dez desenhos, resulta de um “resgate” ao acervo íntimo do artista, reunindo esquissos e textos poéticos. Numa lógica de continuidade, a estrutura do desenho propaga-se para as pinturas – conversa acabada, conversa interrompida e Rakung -, onde a linguagem do corpo exerce preponderância, com soluções recorrentes à cultura africana. Como tal, o eclectismo da obra de António Ole, manifesta-se na escolha dos materiais, no ensaio das aderências e inclusão de outras disciplinas, como a fotografia e o vídeo, há todo um caudal híbrido na matriz poética do artista que distingue a sua prática. Na instalação «Corpo Fechado», regista-se uma breve incursão no domínio do profano e do sagrado, como se um nkisi se tratasse, protetor de muitos males que afligem o mundo.

Nascido em Luanda em 1951, o mestre António Ole é um dos nomes maiores da Artes Angolana, sendo o único artista a representar Angola na 57ª edição da prestigiada Bienal de Veneza, que irá decorrer entre 13 de maio e 26 de novembro, e onde será apresentado o projeto Magnetic Memory / Historical Resonance.

António Ole desenvolveu uma obra que vai da escultura à instalação, da pintura e colagem ao desenho e da fotografia ao filme. Com formação em Cinema, pelo American Film Institute de Los Angeles e em Cultura Afro-Americana pela Universidade da Califórnia, realizou a sua primeira exposição em 1967 e desde a sua estreia internacional, no Museum of African American Art de Los Angeles, em 1984, apresentou os seus trabalhos em várias exposições, bienais e festivais um pouco por todo o mundo, designadamente em Havana, São Paulo, Sevilha, Berlim, Joanesburgo, Dakar ou Amesterdão.

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