Ana Moura transforma Vale do Lobo em Casa de Fados

Pouco passava das 22h30, do passado sábado dia 21 de Agosto, quando Ana Moura subiu ao palco, em Vale do Lobo, Loulé, para mais um concerto inserido na programação do Allgarve 2010.

Num concerto onde a maioria dos temas incidiram no seu último álbum Leva-me aos Fados, Ana Moura começou o concerto enfrentando não o público mas um dos seus instrumentistas, Custódio Castelo, na guitarra portuguesa, o instrumento de timbre (in)tenso inseparável do fado.

Do início ao fim, Ana Moura dialogou com a guitarra, muitas vezes suplicando que a mesma quebrasse o silêncio e a ajudasse a percorrer o caminho sinuoso das melodias da canção nacional.

Cantou fado tradicional, fado musicado, explicou as diferenças e ainda teve tempo para cantar “No Expectations”, tema que interpretou à moda da mouraria, com a melancólica resignação do fado, em homenagem aos Rolling Stones.

Nas cordas, Ana Moura estava bem acompanhada: Custódio Castelo na produção musical e guitarra portuguesa, Filipe Larsen na guitarra baixo (com um grande solo em “No Expectations”), José Elmiro Nunes na guitarra acústica e José Manuel Neto também na guitarra portuguesa: criaram todas as condições para que Ana Moura pudesse cantar os seus fados, fossem eles baladas ou não, sempre com as contramelodias típicas da guitarra portuguesa.

O seu corpo, envolto num vestido justo e elegante, mostrou também que o fado é sensualidade, e Ana Moura não teve receio de o demonstrar, ondulando as suas linhas esbeltas ao som da guitarra, qual odalisca, como uma serpente.

Foi uma noite de música que expôs todas as nuances vocais de Ana Moura: a sua voz exuberante de contralto, quente e rouca (ao ponto de, quando a ouvimos falar, pensarmos se estará “bem da voz”…), pode ser enevoada e hesitante ou clara e afiada, levando-nos até uma insistência trémula que sugere as origens árabes do fado.

Para quem quis ouvir, Ana Moura ofereceu, num só concerto e numa noite de Verão fantástica ao luar, sinais de esperança, dicas de sensualidade, passagens de melancolia, reflexos de determinação e momentos de introspecção.

No público, era ver os portugueses orgulhosos por mais uma voz jovem dar continuidade a uma coisa que é nossa e que, de tão mágica e intensa que é, põe os olhos dos estrangeiros a brilhar de emoção.

O espectáculo terminou com a “A Casa da Mariquinhas”, com o público a cantar e a aplaudir, como mandam as regras de uma boa casa de fados.

Reportagem (texto e fotos) de Paulo Sopa

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